Indústria de materiais de construção: vendas sobem, fé no governo desce

FONTE:  por INDÚSTRIA NEWS

Termômetro Abramat mostra 45% das empresas com vendas em alta no segundo trimestre do ano e capacidade instalada estável em 75%, mas revela também que 73% se dizem indiferentes às ações do governo para o setor


 Quase metade das indústrias de materiais de construção no Brasil vendeu mais no segundo trimestre. Ao mesmo tempo, sete em cada dez não confiam nas ações do governo para o setor. Esse é o retrato que o Termômetro Abramat traçou para junho –  um setor que segue de pé pela força do mercado interno, mas que opera sob desconfiança persistente do ambiente político e econômico.

Os números da demanda doméstica são, à primeira vista, animadores. Segundo o levantamento, 45% das empresas registraram aumento nas vendas no segundo trimestre, 32% relataram estabilidade e apenas 23% viram queda. A utilização da capacidade instalada ficou em 75%,  o mesmo patamar de maio, e acima dos 74% de junho do ano passado. Não é um boom, mas é sustentação.

A percepção sobre o mercado também melhorou. Em maio, 23% das empresas classificavam o momento como ruim. Em junho, essa fatia caiu para 18%. A maioria – 45% –  ainda avalia o cenário como “regular”, o que sinaliza estabilidade sem euforia. Para julho, 64% das empresas esperam continuidade nesse patamar estável, e 32% projetam melhora.

“O mercado doméstico continua sendo o principal fator de sustentação da atividade da indústria de materiais de construção”, resume Mauro Franco, presidente executivo da Associação Brasileira da Indústria de Materiais de Construção (Abramat). Ele lê a pesquisa como sinal de que a recuperação gradual do primeiro semestre pode estar entrando numa fase de acomodação,  nem aceleração, nem retrocesso.

Mauro Franco
Franco: “Mercado doméstico continua sendo o principal fator de sustentação da atividade da indústria”

Investimentos

Os planos de investimento seguem essa mesma lógica de cautela com continuidade. Em junho, 59% das empresas afirmaram pretender investir nos próximos 12 meses,  dois pontos percentuais a menos que em maio, mas ainda sete pontos acima do registrado em junho de 2025. Entre quem planeja investir, 32% priorizam modernizar processos produtivos e 27% miram ampliar capacidade instalada. É dinheiro indo tanto para eficiência quanto para crescimento futuro –  não é uma indústria parada, é uma indústria seletiva.

No mercado externo, o quadro muda de figura. Só 22% das empresas esperam crescer as vendas no trimestre atual. Mais da metade, 56%, projeta estabilidade, e outros 22% preveem queda. A exportação, diferentemente do mercado interno, não dá sinal de tração.

E então vem o dado que talvez mereça mais atenção do que recebeu no próprio levantamento: a confiança no governo. Apenas 5% das empresas se dizem otimistas com as ações voltadas ao setor. Quase três em cada quatro – 73% –  se declaram indiferentes. Outras 23% são francamente pessimistas.

O que observar

o setor de materiais de construção está numa posição incomum:  vendendo bem, investindo com disciplina, mas sem depositar fé alguma no ambiente institucional em que opera. Esse descolamento entre desempenho e confiança é um sinal de alerta que vai além dos números do trimestre: mostra empresas planejando na base da própria resiliência, não da previsibilidade que o poder público deveria oferecer.

Mauro Franco resume o ponto sem rodeios: “Quanto maior a segurança para planejar, maior será a capacidade da indústria de transformar essa resiliência em um ciclo consistente de crescimento.” Por ora, a indústria segura o próprio crescimento sozinha,  o que funciona, mas tem limite.

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